Diálogos transversais sobre antissemitismo, memória, identidade e conflito
Escrever é riscar as páginas. Assim como é — também — desenhar, rabiscar, rascunhar. Este estilo riscante, como nos lembra o filósofo checo-brasileiro Vilém Flusser, se apresenta enquanto um estilete que dilacera e esfarrapa imagens, ao final “as inscrições são imagens esfarrapadas e rasgadas, imagens que o mortífero estilete sacrificou”.
O estilete, o grafite afiado sob a ponta do lápis, o rolamento esferográfico da caneta, os dedos sagazes e ligeiros, furam e penetram a pele para escrever, gravar nela suas breves passagens, suas memórias, seus anseios, seus desejos de adeus, e de amor. São essas imagens dilaceradas e esfarrapadas, vultos de traços ambíguos que habitam nossas memórias e nossas identidades, que são tensionadas na capa de Diálogos Transversais sobre Antissemitismo, Memória, Identidade e Conflito, segundo volume de publicação de artigos focado nas mais amplas temáticas do que diz respeito à produção de conhecimento em Estudos Judaicos no Brasil, promovido pelo Instituto Brasil-Israel.
Nas últimas duas décadas, e cada vez mais, tenho observado construções de narrativas judaicas (ou judaizantes) agarradas à identidades fixas e intransponíveis; possivelmente soluções frente às amarguras da indeterminabilidade, da instabilidade geopolítica, econômica, mas também religiosa, identitária e social; em último caso, síndrome de fuga da própria dúvida. Porém, não seria a construção identitária judaica resposta frente ao Egito (Mitzraim)? Não seria o judaísmo a invenção de si e para si de um Deus portátil, que habita o texto e o livro (Torá), frente à intransportabilidade das pirâmides? Não seria o judaísmo a vontade de escapatória de Mitzraim, desses espaços pequenos, desses lugares apertados de aprisionamento e de escravidão, frente à uma civilização que permite a mobilidade, o deslocamento e o alargamento dos espaços?
Se partirmos dessa posição, o escapamento dos espaços estreitos encontra na diáspora não apenas uma condição histórica, mas uma potência em si. Ao final, a diáspora propõe formas de vida atravessadas pela instabilidade, pela tradução, pela negociação constante entre o que se herda e o que se reinventa. E assim, essa possibilidade de deslocamento trata-se, ao final, de viver entre-tempo, corpos e línguas — e fazer dessa geografia própria uma maneira de habitar o mundo.
Essa colagem de múltiplos fragmentos — sejam imagens, textos ou identidades — não busca restaurar uma pureza perdida, nem retornar a um centro original. Ao contrário, afirma uma vontade de criação a partir do que se tem à mão: restos, camadas, ruínas, rastros. Nesse procedimento talmúdico, um modo de pensar que se dá a partir da justaposição de vozes, comentários e em diálogo entre diferentes tempos e perspectivas, o texto ou a imagem nunca é único nem definitivo, a colagem opera por montagem e deslocamento, sustentando o inacabado como forma de saber. Assim, os fragmentos ganham corpo, os deslocamentos tornam-se linguagem, e as imagens esfarrapadas compõem, em sua reunião provisória, um campo possível de construção de mundo. Afinal, toda identidade se constitui também a partir de uma imagem de alteridade — é sempre entre os outros que nos tornamos quem somos.
Organização: Carolline Mello · Texto: Tamara Crespin
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